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A importância dos actuários nas companhias de seguros

Uma companhia de seguros é uma instituição para-financeira que tem por objecto social compensar pessoas e empresas por perdas patrimoniais e de vida, em troca do recebimento de prémios.

O prémio puro resulta do produto da tarifa pelo capital seguro, sendo que a tarifa reflecte a probabilidade de ocorrência do sinistro em termos de frequência e severidade.

Se é verdade que o negócio segurador vive da aceitação da cobertura de riscos dos seus clientes, a sustentabilidade do mesmo passa pelas companhias de seguros conhecerem, mensurarem e gerirem os riscos resultantes dos contratos em carteira.

Os riscos associados aos contratos de seguros de vida são tipicamente os seguintes: (i) O risco de mortalidade, quando, em média, a incidência de morte entre os segurados é superior à esperada; (ii) O risco de longevidade, quando, em média, os pensionistas vivem mais tempo do que o esperado; (iii) O risco de morbidade (i.e. invalidez), quando, em média, a incidência de doença ou de incapacidade entre os segurados apresenta taxas mais elevadas do que o esperado ou as percentagens de recuperação de deficiência são mais baixas do que o esperado; (iv) O risco de despesas, quando as despesas incorridas na aquisição e gestão de apólices são mais elevadas do que o esperado; (v) O risco de comportamento do segurado, quando, em média, os segurados descontinuam ou reduzem as contribuições ou retiram benefícios antes do vencimento de contratos, a uma taxa que é diferente da esperada; (vi) Risco catastrófico, que consiste no risco de perda ou de evolução desfavorável do valor dos passivos de seguros, resultante de incerteza significativa nos pressupostos de tarifação e de provisionamento relacionados com a cobertura de riscos de ocorrência de eventos extremos ou de carácter excepcional.

Relativamente aos riscos associados aos contratos de seguros de não vida, estes tipicamente são como segue: (i) O risco de prémios e provisões, normalmente o mais expressivo do ramo não vida, que consiste no risco de perda ou de evolução desfavorável dos passivos de seguros, resultante de variações quanto ao momento de ocorrência, frequência e severidade dos eventos previstos nos contratos de seguro e ao momento e montante da regularização dos sinistros. O peso deste risco resulta, fundamentalmente, do volume de prémios e reservas relativos aos contratos de seguros automóvel (responsabilidade civil e outras coberturas), seguros de incêndio e outros ramos e seguros de responsabilidade civil geral; (ii) O risco de descontinuidade, que consiste no risco de perda ou de evolução desfavorável do valor dos passivos de seguros, resultante de alterações no nível ou volatilidade das taxas de denúncia, resolução, não renovação, ou de outras formas de cessação dos contratos de seguro; (iii) O risco catastrófico, que consiste no risco de perda ou de evolução desfavorável do valor dos passivos de seguros, resultante de uma incerteza significativa nos pressupostos de tarifação e de provisionamento relacionados com a cobertura de riscos de ocorrência de eventos extremos ou de carácter excepcional.

Os actuários são os profissionais que mensuram e gerem os riscos acima tipificados, ou seja, gerem a incerteza futura, resultante de acontecimentos aleatórios. Consequentemente, é absolutamente fundamental que as companhias de seguros disponham de uma função actuarial robusta e eficaz, competindo-lhe, nomeadamente, a implementação de uma política de subscrição de riscos prudente e sustentável, a aferição de bases técnicas que permitam tarifar correctamente os riscos subscritos, a avaliação da suficiência e da qualidade dos dados utilizados no cálculo das provisões técnicas, a coordenação do cálculo das provisões técnicas, a verificação da adequação das metodologias, o desenvolvimento de modelos de base e a fixação de pressupostos para efeitos de cálculo das provisões técnicas, informar a administração sobre o grau de fiabilidade e adequação da política de subscrição, da tarifação e do cálculo das provisões técnicas e contribuir para a aplicação efectiva de um sistema de gestão de riscos.

Assim, seria importante que os actuários do ramo vida regularmente analisassem, desde logo para efeitos de calibração da tarifação, o coeficiente de correlação entre o observado e o teórico resultante das bases técnicas adoptadas (por exemplo, entre a mortalidade observada e a mortalidade teórica resultante das tábuas utilizadas).

Nos ramos reais, a maioria das companhias de seguros provavelmente ainda adopta a abordagem denominada burning cost premium para efeitos de tarifação dos riscos a subscrever, na qual a tarifa resulta do rácio entre os custos com sinistros observados e o total de exposição ao risco. Esta é uma abordagem muito limitadora e pouco científica, susceptível de potencialmente fazer as companhias de seguros incorrerem em perdas futuras por deficiência dos prémios praticados, especialmente se existirem alterações no perfil de risco. Também aqui, os actuários do ramo não vida têm um papel importante para efeitos de tarifação. Como estatísticos que são, normalmente socorrem-se de modelos econométricos para efeitos de tarifação dos riscos a subscrever pelas companhias de seguros. São comuns os denominados modelos lineares generalizados (“GLM”), que na prática são modelos de regressão linear multivariada determinísticos e/ou estocásticos.

A gestão integrada de riscos (“ERM”) é, também, uma função-chave nas companhias de seguros, sendo igualmente conduzida por actuários. A função de gestão integrada de riscos deve estar embutida na estrutura organizacional e nos processos de tomada de decisão das companhias de seguros. São exemplos de tarefas cometidas à função de gestão integrada de riscos, a gestão ativo-passivo, a dispersão dos investimentos (mitigador do risco de concentração), a gestão do risco de liquidez, a gestão do risco operacional, a adequação dos tratados de resseguro ao perfil de riscos subscritos, a política de distribuição dos resultados aos accionistas (i.e. dividendos), entre outros.

Sendo as funções actuariais e de gestão integrada de riscos tão importantes na condução do negócio segurador dos ramos vida e não vida, a Agência Angolana de Regulação e Supervisão de Seguros (“ARSEG”), enquanto supervisor e regulador do Sector Segurador, deve ponderar a introdução da figura do “Actuário Responsável” no ordenamento jurídico-regulamentar nacional. Noutras jurisdições, de que são exemplos o Reino Unido e Portugal, ao “Actuário Responsável” compete assegurar, de forma independente, a solvência da companhia. Como corolário, também lhe compete emitir parecer independente sobre a política global de subscrição, sobre a adequação da tarifação, sobre a suficiência das provisões técnicas, sobre a adequação dos tratados de resseguro e sobre o sistema de gestão integrada de riscos, em especial no que diz respeito à modelização dos riscos.

Os actuários são, portanto, uma peça absolutamente fundamental para uma gestão profissionalizada das companhias de seguros em Angola.

 

Nuno Oliveira Matos, Senior Manager da PwC
In Expansão, 5 de janeiro de 2018

Os actuários são peça fundamental para uma gestão profissionalizada das companhias de seguros em Angola.

Nuno Oliveira Matos, Senior Manager da PwC

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Marketing & Business Development, Senior Manager, PwC Angola

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