|
|
 |
Eugênio Staub
CEO e presidente do Conselho de Administração da Gradiente Eletrônica
|
A Gradiente é um dos maiores produtores de bens de consumo eletrônicos do mercado brasileiro, líder de mercado nos segmentos de áudio e DVD e figura entre os três primeiros lugares no ranking dos fabricantes de televisores, após a aquisição da Philco. É, também, a maior empresa brasileira do complexo eletrônico.
Fundada há 42 anos, possui ações negociadas na Bolsa de Valores de São Paulo - Bovespa e cerca de 1.800 funcionários. Em seu parque industrial, localizado em Manaus, no Amazonas, são produzidos mais de 1 milhão de produtos por ano. As vendas anuais da Gradiente ultrapassam R$ 2 bilhões.
Responsável pela ascensão da Gradiente, que começou como um pequeno negócio familiar de importação e revenda de componentes, Eugênio Staub é um dos mais influentes empresários brasileiros e um dos fundadores do IEDI (Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial). Graduado em Administração de Empresas, ele trilhou toda a sua carreira na empresa da familia, na qual começou a trabalhar aos 15 anos.
Globalização
PwC: Qual foi o impacto do processo de globalização na sua indústria e no seu setor especificamente?
Staub: A globalização, como não poderia deixar de ser, impacta todos os setores, inclusive o nosso. No caso da eletrônica de consumo, o resultado desta, de certa forma, é atenuado pelo fato de nós termos mudado, há 32 anos, para a Zona Franca de Manaus, portanto, com incentivos fiscais.
Gradualmente, nas décadas de 70 e 80, toda a indústria brasileira - tanto as que já existiam no país como as recém-chegadas - instalaram-se lá. A produção da indústria eletrônica de consumo ficou concentrada em Manaus e protegida, artificialmente, por um leque de incentivos que, com o passar do tempo, foi diminuindo. Mesmo assim, oferece proteção à indústria em detrimento da importação e do processo de globalização. Apesar disso, os principais players globais mais relevantes.
O efeito do processo de globalização foi muito grande. É preciso compreender que a geografia industrial do mundo, não só no nosso setor, mas em quase todos, está sendo redesenhada nesse momento. Há uma forte tendência de mudança de indústrias do mundo inteiro para o extremo oriente, especialmente para a China, e acredito que a indústria de eletrônica de consumo, apesar da Zona Franca, vai perder espaço, transformando-nos em importadores desses produtos.
PwC: Qual o maior risco na competição com companhias baseadas nos países de economias estáveis e nos emergentes?
Staub: O Brasil é um país com boa tradição industrial e bons empresários e tem capacitação reconhecida no setor privado, seja de capital nacional ou internacional. Onde não somos competitivos? No custo Brasil. Este custo é, basicamente, fruto da deficiência de nossa infra-estrutura, de nosso sistema tributário e da elevada taxa de juros. Mesmo os países emergentes, como a China e os países do leste asiático, por exemplo, têm taxa de juros real muito baixa. O grande problema da produção no Brasil é uma taxa de juros absurda que onera toda a economia.
PwC: De quais países o senhor tem a expectativa de que apareçam novos competidores para a sua empresa no curto prazo?
Staub: Há 50 anos, a indústria de eletrônica de consumo no país era pujante, assim como nos anos 60 e até nos anos 70. Havia uma profusão de indústrias brasileiras. Eram mais de 100 fabricantes de televisores, centenas de produtoras de rádio e de componentes. Cada componente básico do segmento era fabricado por dois ou três produtores nacionais ou multinacionais. Esse quadro modificou-se com o processo de globalização, com a implantação da Zona Franca de Manaus e com a mudança tecnológica.
O Brasil enfrentou, a partir dos anos 70 e 80, a onda da presença japonesa; nos anos 90, foi a onda coreana; todas vieram para cá e duas permaneceram. Agora, obviamente, a competição vem da China, país que passou a concentrar a produção internacional do setor.
PwC: Qual o papel dos acordos comerciais? Como podem ajudar a região num mundo cada vez mais globalizado?
Staub: Há dois tipos de acordos comerciais que devemos analisar, o primeiro com os países produtores, principalmente a China. Nosso setor não está na agenda para acordos desse tipo nem é muito produtivo fazê-los. É inexorável a concentração desse setor na China, na próxima década. A segunda categoria de acordos comerciais são os regionais, os quais são mais eficazes na medida em que propiciam um mercado para a produção brasileira remanescente na América Latina, por exemplo. Eles têm um papel importante para fortalecer o bloco latino-americano. Acordos comerciais tendem a reduzir a proteção do Brasil e da região perante os grandes produtores, especialmente a China.
Gestão da Complexidade
PwC: Em que medida o fato de estar instalada em uma região de economia altamente volátil aumenta o grau de complexidade de sua empresa?
Staub: É um fator relevante. De um lado, desafia a competência e gera capacidade de lidar com isso, mas, sem dúvida, é um fator que aumenta custos, enfraquece as empresas e torna a competição ainda mais difícil.
PwC: O senhor diria que esse grau de complexidade é mais interno, externo ou um pouco de cada?
Staub: A complexidade da volatilidade econômica afeta tanto o mercado interno como o externo. Veja o exemplo do câmbio. Os exportadores organizaram-se para trabalhar com um câmbio da ordem de R$ 2,70 e, agora, têm que conviver com o dólar na faixa de R$ 2,10/R$ 2,20. Isso é um grande desafio para o setor exportador e também para o produtivo no mercado interno, porque a competição externa fica 30% mais barata em poucos meses. A volatilidade econômica, como se vê, é um desafio com o qual temos de lidar no dia a dia. Isso enfraquece as empresas.
PwC: Quais ações tomadas recentemente agregaram valor para sua empresa e seus stakeholders? Essas ações aumentaram o grau de complexidade?
Staub: A Gradiente passa por uma grande transformação para se adaptar a essa situação de constante mudança, seja cambial, conjuntural, econômica ou até a mudança da geografia industrial no mundo. Está terminando de implantar uma modificação importante em suas linhas de produto, que inclui a compra de uma empresa concorrente, a Philco, para ampliar a escala de produção e poder fazer frente a esse desafio. Esse cenário, para a nossa indústria, é permanentemente desafiador, porque você tem inovações tecnológicas permanentes, e isso significa
alterações inesperadas no perfil dos produtos e dos hábitos de consumo. Soma-se a essa particularidade, no caso do Brasil, a volatilidade e as incertezas da economia. Isso tudo, sem dúvida, aumenta a complexidade.
PwC: Qual é o grau de complexidade na sua empresa? Há um empenho constante em algum programa para reduzi-lo?
Staub: Sem dúvida. Um dos exercícios permanentes é a busca de maior eficiência, foco em resultado, em adição de valor e, como conseqüência, na redução de custos.
PwC: Qual o papel do CEO na administração dessa complexidade?
Staub: É um papel extremamente importante, difícil, mas compensador. A Gradiente completa 42 anos em 2006; nesse período, passamos por diversas mudanças de cenário na economia brasileira: abertura à importação, em 1965, um ano depois da criação da empresa; fechamento da importação entre 1975 e 1990; a criação da Zona Franca de Manaus, alterando tudo nos anos 70, 80 e 90; a abertura do governo Collor; o Plano Real; a crise energética no início desta década, que abalou muito o setor; a turbulência de 2002 em decorrência da incerteza política e a inesperada manutenção da atual política econômica pelo governo atual. Estamos vacinados contra a volatilidade, a complexidade e coisas afins. A Gradiente tem demonstrado que é capaz de administrar essas mudanças. Mas não é fácil. Ou ficamos de cabelos brancos ou perdemos os cabelos. No meu caso, ambos.
Desafios Setoriais
PwC: Quais os principais desafios para o futuro do seu negócio?
Staub: O desafio futuro é a redução da produção local. Em conseqüência disso, a Gradiente não é mais considerada apenas uma indústria do setor, mas, sim, uma empresa de tecnologia, uma empresa de marca. Há o desafio de lidar com esse cenário, e o desafio que é de todo o mundo: o da crescente presença de players chineses.
PwC: Somada a todas as pressões provenientes do processo de globalização em várias partes do mundo dos negócios, há uma grande expectativa de que as empresas se comprometam com políticas de responsabilidade social e de desenvolvimento sustentável. O que o senhor pensa dos esforços nesse sentido? Como sua empresa está empenhada nisso?
Staub: O nosso segmento não é poluente. Nesse caso, tem mais a ver com o bem-estar da sociedade. É a alegria de uma família com o televisor, com o aparelho de som, com o DVD, com o entretenimento, com a informação, com a comunicação. É um setor fundamental para o bem-estar social, principalmente, nessa nossa realidade contemporânea.
Especificamente na área de responsabilidade social, a Gradiente reconhece que este é um quesito cada vez mais importante na formação da Sociedade e no respeito à marca. Procuramos participar de programas existentes. O grande desafio é fazer um programa próprio de responsabilidade social, dedicar-se a isso,
adotar alguma atividade que possa ser legitimamente reconhecida como social. Estamos buscando fazer isso. Reconhecemos este como um tópico importante para o desenvolvimento da empresa. Na medida em que o capital evolui, numa sociedade injusta como o Brasil, esse é um quesito que adquire cada vez maior prioridade na gestão da empresa.
Convergência Tecnológica
PwC: Qual é o impacto da convergência entre empresas de tecnologia,
telecomunicações e de mídia em sua empresa?
Staub: A Gradiente está muito ligada a esse processo, sempre esteve na fronteira dessa convergência. A empresa foi pioneira, no Brasil, no lançamento de uma série de produtos que
surgiram na esteira da integração desses setores. A Gradiente, portanto, tem conseguido tirar proveito dos benefícios dessa convergência.
PwC: Qual a sua posição em relação a essa convergência?
Staub: A convergência é um termo usado há tanto tempo que está até um pouco mal compreendido. Mas ela está acontecendo e se intensificará por meio da digitalização de todos os segmentos. O último passo para completar esse processo é o lançamento da televisão digital. O avanço tecnológico produz mudanças
estruturais nos produtos, na forma de usá-los, nas exigências do consumidor. O grande guarda-chuva para descrever isso é a convergência. Na realidade, é uma evolução tecnológica por meio da qual se colocam muito mais serviços e alternativas à disposição do consumidor.
PwC: Sua empresa esteve envolvida em fusões e aquisições nos últimos três anos?
Staub: A Gradiente é resultado de uma série de aquisições. Era uma empresa familiar que se dedicava à importação até o início dos anos 60. No fim dessa década, passou a produzir componentes eletrônicos e tornou-se uma indústria. Em 1970, a então Émile H. Staub comprou a Gradiente, que era uma empresa
pequena. Foi o início de uma série de aquisições: em 1972, a Selectrix; em 1979, a inglesa Garrard e a Polyvox; em 1989, a Telefunken; e, em 2005, a Philco, que pertencia à Itautec. O desafio atualmente é manter a Philco como marca independente, o que não era o propósito com as outras. Agora é diferente. Queremos fazer como a Staub fez com a Gradiente, manter essa marca viva e presente no mercado.
PwC: Há planos para fusões ou aquisições nos próximos três anos?
Staub: Nunca se planeja isso. As aquisições são frutos das oportunidades que aparecem no mercado. Não há uma política de continuidade de fusões e aquisições. Não foi assim nas oportunidades anteriores. Quando aparecerem outras oportunidades, examinaremos com cuidado.
PwC: A defesa da propriedade intelectual, o combate à pirataria e à quebra de patentes tem se tornado extremamente importante para as empresas. Como o senhor avaliaria os efeitos dessas ações e qual é a política e os procedimentos de sua empresa em relação a esses temas?
Staub: Esses problemas não nos afetam tanto, porque nosso processo produtivo não envolve propriedade intelectual, software ou outros produtos sujeitos à pirataria. O que nos atinge é outro tipo de crime, o contrabando. Ou "importabando". Contrabando, o termo já define bem o que é. "Importabando" é a importação com 'fachada legal', mas com preços extremamente depreciados. O praticante do "importabando" paga tributos muito baixos - ou nenhum - sobre o produto e concorre deslealmente. É o grande problema que a Gradiente e o nosso setor enfrentam, assim como a Polícia Federal e a Receita Federal não têm conseguido lidar com a grande capacidade de várias empresas brasileiras guiarem-se por essas práticas ilegais. Ao longo da história da
Gradiente, aprendemos que a melhor forma de enfrentar esse tipo de concorrência desleal é praticar preços baixos e prestar bons serviços
aos consumidores.
Ética e transparência
PwC: Como o senhor avalia o nível de transparência no trato com o setor público nos países sul-americanos?
Staub: Ao longo da nossa história, houve sempre a preocupação de ter transparência e ética nas relações com o setor público. Houve governos mais abertos ao diálogo e outros menos. Evidentemente, não se imagina que o governo vá abdicar do direito e da obrigação de decidir, mas é mais que prudente que ouça o setor privado. O atual tem feito isso. Nem sempre a decisão é a que nos parece a mais correta, mas ele ouve as ponderações do empresariado. É fundamental que exista ética nessa relação.
Recentemente, nosso conselho de administração aprovou uma norma que veta financiamentos de campanhas eleitorais. A Gradiente nunca teve grande participação em campanhas e quando o fez, foi sempre com a maior transparência, de forma oficial. Nunca houve "caixa dois" na empresa, nem financiamentos "por debaixo da mesa". A partir de agora, nem mesmo oficialmente vamos fazê-lo. Não vamos mais participar de campanhas eleitorais por acreditar que não parece correto o setor privado influenciar as eleições com o uso de seu poder econômico.
PwC: Como o senhor avalia o nível de transparência no trato com o setor privado?
Staub: Acho que tem de tudo. Empresas que tratam a questão como nós. E empresas, como está sendo provado pelas CPIs (Comissões Parlamentares de Inquérito), que usam o canal informal, o "caixa dois", para tentar influenciar políticas públicas para seu próprio proveito. Nós repudiamos isso.
PwC: Quais são, na sua opinião, os principais fatores responsáveis por esses escândalos de corrupção na América do Sul?
Staub: Em primeiro lugar, acho que isso não é privilégio da América do Sul. Volta e meia, você vê isso acontecer nos países de primeiro mundo. Sem citar nomes, mas algumas das maiores economias do mundo tiveram seus escândalos de corrupção recentes. Acho também que, na América do Sul, esse processo está sendo revertido graças à imprensa, à indignação da sociedade. Isso sempre haverá, e o importante é combater para que tal situação seja coibida e minimizada.
PwC: Quais são, na sua opinião, os melhores caminhos para minimizar esse problema?
Staub: Acho que a reforma política radical, como a que está sendo proposta por alguns, é um grande caminho para isso. A fiscalização das verbas, sobretudo nas campanhas eleitorais, por parte dos tribunais é fundamental. Muitas vezes o que o político reporta é ridículo perto daquilo que, se sabe, ele gasta para eleger-se deputado federal, senador ou até para cargos do Poder Executivo. Tem que haver mais fiscalização. Os chamados 'sinais exteriores de riqueza', considerados para efeito de imposto de renda, constituem-se uma fonte importante para a Receita Federal e deveriam ser também para a Justiça Eleitoral. Tentar descobrir quanto custou uma campanha depois que ela se encerrou é muito difícil. Mas enquanto ela está ocorrendo é fácil descobrir quanto custaram as camisetas, as flâmulas, a propaganda eleitoral paga no rádio e na televisão etc.
PwC: O que seria fundamental para incrementar o desenvolvimento econômico na América do Sul?
Staub: A América do Sul, até o fim dos anos 70, crescia mais depressa que a economia mundial, e esse desenvolvimento era liderado pelo Brasil, país que teve maior crescimento nos primeiros 80 anos do século passado e, de certa forma, foi acompanhado pelas nações vizinhas. Nos 25 anos seguintes, desde o início da década de 80 até hoje, a América do Sul praticamente afundou e foi perdendo sua participação na economia mundial. Por isso, surgiram vários problemas de caráter social, como a falta de segurança.
Em todos os países da região enfrentamos os mesmos problemas, em razão do fraco desempenho econômico. A questão que se coloca é como retomar aquele ritmo de crescimento? A primeira resposta, tomando como exemplo o Brasil, é operar com taxas de juros que estimulem o investimento produtivo, a geração de emprego, a exportação e maior participação na economia global. Deve-se adotar uma postura mais agressiva, no bom sentido, nas negociações com os principais blocos econômicos mundiais, visando ao acesso a esses mercados e isso está em curso. E, sobretudo, fazer um planejamento estratégico para o desenvolvimento.
Nesses últimos 25 anos, o único objetivo desses países era defender metas econômico-financeiras em torno do Consenso de Washington. Demorou 25 anos para se perceber que isso não era solução para nada. O modelo desenvolvimentista, concluiu-se, era o que atendia melhor à sociedade. Não há saída para a América do Sul que não o crescimento econômico e a melhor distribuição de renda. Isso precisa ser atingindo por meio da mudança da política econômica, da atitude em relação aos players internacionais na negociação e no planejamento estratégico para cada um dos países, que acabará, conseqüentemente, sendo o planejamento estratégico para a região.
PwC: Na questão dos marcos regulatórios, o senhor acredita que o Brasil está no ritmo correto para a adoção de regras a fim de melhorar o ambiente de negócios e atrair os investimentos diretos?
Staub: Estamos atrasados nisso. Aliás, em muitas coisas. Na definição de regras claras e estáveis para atrair investimentos. Há algumas ações nesse sentido, como as PPPs (Parcerias Público-Privadas), mas ainda não sabemos como funcionará. Falta habilidade para lidar com esse tema. Insisto, porém, que nossa principal carência é não sabermos para onde vai o país e, portanto, a região, porque o cenário mundial está mudando constantemente.
Países que têm um panorama claro fazem sucesso, como o Japão na metade do século passado. Como fazem, mais recentemente, os países do sudeste asiático, os famosos tigres, e a própria China. Sabem o que querem para o seu país e vão persegui-lo, não só em termos de política econômica, mas em suas relações internacionais.
PwC: Qual a ligação que o senhor vê entre o aumento da transparência e o crescimento dos investimentos diretos?
Staub: Não há crescimento de investimentos diretos se não houver transparência. Não temos um norte para governar o país. Voltando ao início de nossa conversa, precisamos ter indústria eletrônica ou não? Se ela é necessária, qual é o perfil? Como iremos fomentá-la sem ferir as regras impostas pela globalização?
O Brasil é um país abençoado por Deus, tem um grande número de atributos muito positivos e não é impossível fazer um planejamento estratégico para esse país, saber como ele está inserido no mundo, e como o será daqui 20, 40, 60 anos. Isso não está traçado. Até agora, acreditou-se que basta tomar certas medidas macroeconômicas, e o mercado resolve o resto. Isso não é assim.
PwC: Quais os principais obstáculos macroeconômicos a serem vencidos para a promoção do desenvolvimento sustentável na América Latina?
Staub: Acho que estamos num processo de evolução política. A eleição do presidente Lula retirou do cenário o "risco político" que era permanente no país. Nos últimos 20 anos, esse risco era a eleição do PT. Independentemente do que aconteceu no país em 2005, a eleição do PT, mesmo que ele tivesse sucesso em seus propósitos, o que parcialmente não teve, mudou esse cenário. Acho que, apesar da estagnação econômica dos últimos 25 anos, houve uma grande evolução da consciência, do conhecimento político e da capacidade da sociedade de exigir e cobrar. A mídia teve um papel importante nisso, e por isso os cidadãos, hoje, são muito mais conscientes, mais indignados, mais exigentes. Isso promove uma evolução política que eu gostaria que fosse mais rápida. Entretanto, infelizmente, ela é lenta mesmo, mas vai acontecendo.
Conjuntura
PwC: Estamos em um ano eleitoral. O senhor acredita na possibilidade de ocorrerem as reformas constitucionais, como a tributária, a política?
Staub: Não. Infelizmente, não. O ideal seria buscar um cenário para que essas reformas pudessem acontecer no início do próximo mandato. Não vejo possibilidade agora. O que espero é que o Brasil acorde para aproveitar o bom cenário mundial. A grande lástima, nos últimos anos, foi o país não saber tirar proveito de um panorama internacional extremamente favorável. Não tivemos a coragem de fazer o que precisava ser feito em termos de reformas e outras mudanças.
PwC: Deveria haver algum mecanismo para garantir que o processo legislativo caminhasse com alguma normalidade mesmo em ano eleitoral?
Staub: : Isso é próprio do processo democrático. Não acho que seja diferente em outros países. O problema é que o mandato presidencial é curto. Deveria ser de cinco ou seis anos (sem reeleição) para que essa estagnação ocorresse em intervalos maiores. É inerente ao processo político, ao de tomada de poder, e, nessa hora, não é o momento de balançar o barco fazendo grandes reformas. Isso é próprio do sistema.
PwC: Sem as reformas constitucionais, o País tem condições de crescer em 2006?
Staub: Sem as reformas, o Brasil deveria ter condições de crescer de 4% a 5% em 2006. Se aprovasse as reformas, cresceria 7%. Isso é o que precisaria crescer, como já cresceu no passado. Nós estamos patinando, há muito tempo, nessa dicotomia das taxas de câmbio e de juros. Os juros são altos porque se forem menores haverá inflação, dessa forma, não houve investimento. E, por outro lado, não há investimento porque a taxa de juros é alta. Estamos nesse dilema e só um novo governo, um mais corajoso, vai enfrentar essa realidade.
O medo da inflação e a falta de conhecimento de todos os fatores que a geram fizeram-nos extremamente conservadores, a ponto de termos a taxa de juros mais alta do planeta. É uma questão mortal para o país. Essa taxa desequilibra as finanças públicas, impede o investimento produtivo, leva o capital para a renda fixa e trava a economia. Isso pode ser destravado mediante um ato de vontade política. Além disso, nunca se calculou o quanto dessa taxa está contido no preço dos produtos. Ou seja, reduzindo a taxa, você diminui custo e cai o preço. Aumenta o volume de produção. O nosso setor demonstra isso. Nesses últimos dois anos, o setor cresceu a uma taxa muito acelerada em virtude da expansão do crédito ao consumidor, estamos falando de 20% a 25% ao ano, e caíram os preços.
É uma falácia acreditar que o aumento de demanda vai provocar aumento de preço. Cada caso é um caso. Falta um entendimento nacional em torno desse assunto, uma compreensão do problema sobre o que realmente influencia os preços.
PwC: O senhor acredita na reeleição do presidente Lula?
Staub: Não dá para prever. O presidente teve a sua imagem chamuscada com escândalos, mas tem atributos muito positivos como o bom diálogo com grande parte da população. Porém, a economia é fundamental no processo eleitoral. Não dá para fazer um prognóstico muito preciso sobre isso.